Descrição
História e tradição desta falange
Eu fico com a pureza da resposta das crianças! (Gonzaguinha)
Guias que trabalham por meio da alegria, da sinceridade e da linguagem infantil, trazendo ensinamentos sobre renovação, esperança, afeto e a capacidade de reencontrar simplicidade mesmo diante das dificuldades.
Na Umbanda, as Crianças formam uma das manifestações espirituais mais reconhecidas dos terreiros. Também podem ser chamadas de Erês, Ibejada, Ibeijada ou Beijada, dependendo da casa, da região e da tradição seguida. Elas se apresentam com gestos, linguagem, brincadeiras, preferências e comportamentos associados ao universo infantil, mas por trás dessa aparência existe um trabalho religioso levado a sério dentro do ritual.
Risos, perguntas inesperadas, brinquedos, doces e maneiras espontâneas de conversar fazem parte dessa expressão. A forma aparentemente simples de falar não significa que sua atuação seja superficial.
Pelo contrário: uma das características atribuídas a esses guias é justamente a capacidade de tocar questões complexas usando palavras acessíveis, imagens cotidianas e uma sinceridade que dispensa grandes discursos.
Nas giras, podem aconselhar, acolher, participar de passes, trabalhar a harmonização do ambiente e aproximar o consulente de sentimentos como esperança, confiança e alegria. A maneira exata como esses trabalhos acontecem depende dos fundamentos de cada terreiro.
Os Erês são espíritos de crianças?
Não existe uma única explicação aceita por todas as correntes da Umbanda.
Algumas casas compreendem essas entidades como espíritos que desencarnaram durante a infância e continuaram sua caminhada espiritual. Essa é, por exemplo, a interpretação apresentada por uma sacerdotisa entrevistada pelo Brasil Escola.
Outras vertentes ensinam que não é necessário que tenham morrido crianças. Nessa leitura, podem ser espíritos experientes que adotam a aparência, a linguagem e o comportamento infantil como forma de trabalho e comunicação.
Existem também outras interpretações ainda, onde as crianças podem ser os espíritos encantados (ou seja, nunca viveram uma vida carnal) ou até mesmo crianças que possuem o espírito evoluído, mas que nunca pisaram em terra numa vida.
Em resumo: Erês ou Crianças são entidades espirituais da Umbanda que se manifestam através de uma identidade infantil e trabalham dentro dessa linguagem, independentemente da explicação adotada por cada tradição sobre sua origem espiritual.
Erê na Umbanda e Erê no Candomblé
Apesar de compartilharem vocabulário e diversos elementos culturais, Umbanda e Candomblé possuem estruturas religiosas diferentes.
Na Umbanda, Erê tornou-se amplamente utilizado como nome para entidades que se apresentam dentro da linha infantil.
Em tradições do Candomblé, entretanto, o termo pode estar relacionado ao estado de Erê e à manifestação que estabelece uma mediação entre o iniciado e seu Orixá. A literatura antropológica registra essa diferença, enquanto o uso cotidiano brasileiro também fez com que a palavra adquirisse sentidos mais amplos.
Portanto, não é adequado pegar a definição de uma religião e simplesmente transferi-la para a outra.
Isso vale também para Ibeji.
Quem é Ibeji?
Ibeji pertence à tradição religiosa iorubá e está relacionado à gemelaridade. O próprio nome é associado ao nascimento de dois, e sua representação tradicional envolve o princípio dos gêmeos. Na cultura religiosa iorubá, a gemelaridade possui um lugar especial, e Ibeji está ligado à proteção das crianças.
No Brasil, o culto de Ibeji encontrou-se com outras tradições e tornou-se profundamente relacionado ao imaginário das Crianças, dos santos Cosme e Damião, das festas de setembro e da distribuição de alimentos e doces.
Isso explica a proximidade entre Ibeji e a Ibejada, mas não significa que sejam automaticamente a mesma coisa.
Na tradição de Ibeji, a duplicidade não representa apenas duas crianças lado a lado. Os gêmeos simbolizam parceria, complementaridade e continuidade.
Diversos itãs apresentam os irmãos solucionando situações através da cooperação, do revezamento e da inteligência. Há narrativas nas quais conseguem até confrontar forças muito maiores que eles justamente porque, enquanto um se cansa, o outro continua.
Essa imagem oferece uma bela chave para compreender por que a infância religiosa não deve ser confundida com fragilidade.
A brincadeira pode esconder estratégia.
A aparente ingenuidade pode desmontar uma situação que a força bruta não resolveria.
E duas pequenas mãos trabalhando juntas podem realizar o que uma grande mão sozinha não conseguiria.
Como as Crianças se manifestam
A incorporação costuma conservar elementos reconhecíveis do comportamento infantil.
Algumas entidades chegam sorrindo e correndo. Outras ficam sentadas, observam mais do que falam ou demonstram timidez. Há aquelas que querem brincar, cantar, comer ou conversar durante longos períodos.
Portanto, não existe um único "jeito de Erê".
Há manifestações expansivas e outras tranquilas.
Uma criança espiritual pode gostar de bonecas, outra de carrinhos; uma pode falar muito, outra quase nada. Mesmo comportamentos que parecem simples podem possuir significado dentro do trabalho realizado naquele momento. Relatos de terreiro também associam certas atitudes a processos de descarga ou reorganização do ambiente.
A alegria é marcante, mas não deveria transformar a gira em caricatura. A atmosfera pode ser descontraída sem que o caráter religioso desapareça.
A verdade dita de maneira simples
Uma característica repetida em diferentes tradições é a franqueza.
A Criança pode formular em poucas palavras aquilo que alguém passou horas tentando explicar.
Perguntas aparentemente inocentes podem desmontar justificativas complicadas:
Se você não gosta disso, por que continua fazendo?"
"Se está com saudade, por que não fala?"
"Por que brigou se gosta dele?
Não é a elaboração intelectual que ocupa o primeiro plano, mas a capacidade de retirar as camadas que foram colocadas sobre um problema.
Por isso a simplicidade aparece tantas vezes como um dos grandes ensinamentos dessa linha.
Relação das Crianças com os Orixás
Muitos terreiros compreendem que os guias infantis podem trabalhar próximos às forças dos Orixás.
Uma entidade relacionada às matas pode ser aproximada de Oxóssi; outra vinculada às cachoeiras pode trabalhar sob a influência de Oxum; manifestações ligadas ao mar aparecem relacionadas a Iemanjá, enquanto outras podem trazer referências a Xangô, Iansã, Ogum e diferentes forças do culto.
Isso não significa que exista uma tabela universal do tipo "todo Erê de tal Orixá deve agir assim". O fundamento pertence à casa e à própria entidade.
Brinquedos e objetos
Bonecas, bolas, carrinhos, chupetas e outros objetos infantis aparecem com frequência nas festas e manifestações da linha.
Não precisam, entretanto, ser entendidos como acessórios obrigatórios.
Eles fazem parte de uma linguagem simbólica.
O brinquedo remete à capacidade de experimentar o mundo, imaginar possibilidades e transformar objetos comuns por meio da criatividade.
Uma caixa pode virar uma casa.
Um pedaço de madeira pode virar espada.
Um círculo desenhado no chão pode se tornar um reino inteiro.
A lógica infantil contém justamente essa capacidade de transformar o pequeno em universo.
27 de setembro e as festas das Crianças
O período entre setembro e outubro tornou-se particularmente associado a essas celebrações.
No Brasil, 27 de setembro consolidou-se como uma das grandes datas populares ligadas a Cosme e Damião, Ibeji e às festas de Crianças nos terreiros. A distribuição de doces tornou-se uma das expressões mais conhecidas dessa tradição.
Existe uma pequena curiosidade histórica: no calendário litúrgico católico contemporâneo, Cosme e Damião são celebrados em 26 de setembro, enquanto a tradição popular brasileira e muitos terreiros conservaram fortemente o dia 27.
Também aparecem celebrações próximas de 12 de outubro, Dia das Crianças, e, em algumas tradições, referências a Crispim e Crispiniano, celebrados em outubro.
Área de atuação
Campos de influência espiritual
O que aprendi com eles
Ensinamentos e reflexões
A simplicidade não é ausência de sabedoria.
As Crianças ensinam que é possível atravessar assuntos difíceis sem carregar para sempre o peso que eles deixaram. Sua espontaneidade convida a olhar novamente para aquilo que o adulto tornou excessivamente complicado, enquanto sua sinceridade revela verdades que muitas vezes tentamos esconder de nós mesmos.
Seu aprendizado está no recomeço: conservar a capacidade de confiar, repartir, perdoar, brincar e se encantar, sem confundir leveza com irresponsabilidade. A infância que representam não é ignorância, mas uma maneira direta de devolver movimento àquilo que ficou endurecido.
Perguntas frequentes
Dúvidas comuns sobre Erês (Crianças)
O que são Erês na Umbanda?
São entidades que trabalham dentro da chamada linha das Crianças e se apresentam através de linguagem, gestos, preferências e comportamentos associados à infância. Sua atuação costuma estar ligada à alegria, sinceridade, esperança, acolhimento e renovação.
Todo Erê morreu quando era criança?
Não existe consenso. Algumas tradições acreditam que sim; outras entendem que espíritos podem assumir uma forma infantil para realizar seu trabalho espiritual. As duas concepções são encontradas na Umbanda.
Erê e Criança são a mesma coisa?
Na Umbanda, os termos frequentemente são utilizados para falar da mesma linha espiritual. Entretanto, Erê possui outros sentidos em tradições do Candomblé, por isso o contexto religioso é importante.
O que significa Ibejada?
É uma das denominações coletivas utilizadas para as entidades infantis da Umbanda. Também aparecem grafias como Ibeijada, Beijada e Bejada.
Ibeji e Erê são a mesma coisa?
Não necessariamente. Ibeji pertence à tradição dos Orixás e está relacionado aos gêmeos e à proteção da infância. Erês ou Crianças designam entidades espirituais dentro da Umbanda. A história das religiões afro-brasileiras aproximou profundamente esses universos.
Qual é a diferença entre Erê na Umbanda e no Candomblé?
Na Umbanda, o termo geralmente identifica entidades da linha infantil. Em tradições do Candomblé, Erê pode designar uma condição ou manifestação ligada ao iniciado e à relação com seu Orixá. Os fundamentos variam conforme a tradição.
Qual a relação entre Erês e Cosme e Damião?
A ligação se desenvolveu no Brasil por meio do encontro entre tradições africanas da gemelaridade, especialmente Ibeji, e a devoção católica aos santos gêmeos Cosme e Damião. Com o tempo, festas, imagens e práticas se aproximaram profundamente.
Quem é Doum?
Doum aparece na tradição brasileira como uma terceira criança associada a Cosme e Damião. Sua presença guarda relação com tradições iorubanas referentes à criança que nasce depois de irmãos gêmeos.
Qual é o dia dos Erês?
Muitos terreiros realizam grandes homenagens em 27 de setembro, embora as entidades possam trabalhar durante todo o ano. Algumas casas também realizam celebrações próximas ao Dia das Crianças, em 12 de outubro.
Por que os Erês recebem doces?
Nas giras de Ibejada, doces fazem parte da própria comida ritual. Além de serem associados culturalmente à infância, simbolizam a doçura atribuída às entidades e participam materialmente da celebração.
Quais doces são oferecidos?
Bolos, balas, pirulitos, cocadas, suspiros e diferentes tipos de doces aparecem com frequência. Frutas, guaraná, sucos e água de coco também podem fazer parte das mesas. O fundamento varia conforme o terreiro.
O caruru é comida de Erê?
O caruru possui forte relação com as festas de Ibeji e com tradições afro-brasileiras, especialmente na Bahia. Algumas casas de Umbanda também o utilizam em suas celebrações.
Erês fazem atendimento espiritual?
Em muitas casas, sim. Podem conversar com consulentes, aconselhar e participar de diferentes trabalhos da gira. Algumas comunidades recebem a Ibejada regularmente, enquanto outras reservam sua presença principalmente para ocasiões festivas.
Por que os Erês falam como crianças?
A expressão infantil faz parte de sua identidade ritual. A espontaneidade, o diminutivo, as brincadeiras e perguntas diretas constituem a forma pela qual essas entidades se comunicam.
As Crianças só fazem brincadeiras?
Não. A brincadeira faz parte da manifestação, mas a gira continua sendo um trabalho religioso. A própria descontração pode ser utilizada para aconselhar, acolher e modificar a maneira como uma pessoa olha para determinada situação.
Erê é uma entidade menos evoluída?
Não há fundamento para concluir isso simplesmente pela aparência infantil. Diversas correntes compreendem a infância como uma forma de apresentação espiritual, e não como indicador de desenvolvimento da entidade.
Existem Erês ligados a diferentes Orixás?
Em muitas casas, sim. Nomes e elementos da entidade podem indicar relações com matas, cachoeiras, praias ou forças como Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Xangô, Iansã e Ogum. Essas associações variam conforme o fundamento do terreiro.
Quais são as cores dos Erês?
Não há uma combinação universal. Rosa, azul-claro e branco são bastante populares, mas determinadas entidades utilizam cores associadas ao Orixá ou ao campo natural com o qual trabalham.
Posso fazer uma oferenda para Erê em casa?
Não existe uma receita universal. Como oferendas, velas, alimentos e locais de entrega pertencem ao fundamento religioso, o mais adequado é seguir a orientação do terreiro ou dirigente espiritual de sua confiança.
Qual é a saudação das Crianças?
Salve as Crianças! e Salve a Ibejada! aparecem amplamente nas casas. Também existem outras saudações e formas tradicionais, que podem mudar conforme a linhagem religiosa.
